Folha Interativa
Tv Interativa
Remédio

Doutor Cannabis: o advogado que libera plantações de maconha no Brasil

Ex-surfista e usuário da erva, Emílio Figueiredo vira a maior referência do país em processos para permitir o cultivo da planta para a produção de remédios

09/08/2019 23h43Atualizado há 2 meses
Por: Redação Interativa
Fonte: VEJA
80
CULTIVO - Emílio Figueiredo, em meio a uma estufa caseira: causas vencidas pelo direito fundamental à saúde (Eduardo Monteiro/.)
CULTIVO - Emílio Figueiredo, em meio a uma estufa caseira: causas vencidas pelo direito fundamental à saúde (Eduardo Monteiro/.)

Morador Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, B.A. cultiva desde 2016 cinco pés de maconha no quintal de sua casa. Das plantas, extrai flores da Cannabis sativa que são enviadas a um laboratório da UFRJ. O local conta com autorização judicial para produzir, com base nessa matéria-prima, um óleo capaz de aliviar espasmos e convulsões em pacientes como a filha de 4 anos de B.A., que nasceu com microcefalia. Em julho, ele entrou com um habeas-corpus para legalizar a plantação doméstica. “Não quero continuar na clandestinidade, pois não estou fazendo nada de errado”, afirma. “Há remédios importados para tratar os mesmos sintomas, mas eles custam muito caro.”

Quem defende a família é o advogado Emílio Figueiredo, de 41 anos, considerado a maior autoridade do país em casos que envolvem a liberação do cultivo da erva para fins medicinais. A atuação no “direito canábico” é voluntária e conduzida em paralelo com as suas atividades profissionais em um escritório do Rio. Ele diz ter se interessado pelo assunto em 2008, após passar a lua de mel em Amsterdã, na Holanda, onde a erva é legalizada. De volta ao Brasil, envolveu-se na organização da Marcha da Maconha e começou a usar sua expertise para dar conselhos jurídicos a pessoas que participavam de um fórum on-line sobre a Cannabis e enfrentavam questões legais. Na época, era comum cidadãos serem acusados de tráfico internacional ao tentar importar sementes de maconha. A primeira vez que Figueiredo assumiu um processo foi em 2012, quando recebeu a ligação de uma mãe desesperada porque seu filho estava preso preventivamente havia oitenta dias, no interior de São Paulo, em razão de manter quatro pequenas mudas da planta em casa.

Para Figueiredo, as propriedades médicas da erva ficaram evidentes quando um familiar próximo padecia de um câncer no estômago. O parente, já sem apetite em razão das cirurgias e convivendo com os efeitos colaterais da rádio e da quimioterapia, recebeu orientação do médico para usar maconha. A droga foi fornecida pelo próprio Figueiredo, que já a consumia desde adolescente, quando surfava na Praia de Itacoatiara, em Niterói. Figueiredo diz fazer uso diariamente da Cannabis até hoje e garante que nunca fumou um baseado antes de trabalhar. “A maconha já está liberada no Brasil. Qualquer pessoa, inclusive menores de idade, pode ter acesso a ela. O que nós estamos pedindo é controle”, defende. Para o Doutor Cannabis, portanto, falta apenas um “tapinha” na lei.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.