Por Gisele Franchini e Tiago Penteado
Ele olha nos olhos e não tem medo do que vem pela frente. Muito adaptado ao “outro lado” do microfone, Marcelo Tas responde o que lhe é proposto sem titubear.
O jornalista, apresentador, ator, diretor, escritor e “faz tudo” nos recebeu na Assessoria de Comunicação da Rede Bandeirantes de Televisão para um bate-papo pra lá de inspirador. Sorridente e de uma gentileza ímpar, logo se postou na cabeceira da mesa. “Quem senta na ponta (da mesa!), paga a conta”, brincamos. E ele: “Legal, estou acostumado a pagar”.
Atualmente Marcelo Tas é um dos mais importantes comunicadores brasileiros. Super ligado às redes sociais, desenvolve um trabalho gigantesco sobre o tema por meio de palestras. Só no twitter o apresentador tem mais de dois milhões de seguidores que acompanham diariamente seus comentários e impressões sobre todos os tipos de assuntos. Além de palestrante e âncora do programa Custe o que Custar (CQC), na Band, ele é colunista da IstoÉ, atualiza quase diariamente seu Blog, tem um programa no canal Cartoon Network, é marido, pai e faz muito mais. Como ele administra o tempo com tantos compromissos? “Eu não administro o tempo, esse é o segredo (risos). Eu deixo a vida me levar, como diz Zeca Pagodinho. Os projetos que faço são de grande maturação. Eu escolho muito antes de entrar, então talvez isto seja uma resposta”, disse.
A TV vem sendo o grande cenário de ação do jornalista há muitos anos. O primeiro trabalho de grande evidência foi com o personagem Ernesto Varela, um repórter que, assim como a turma do CQC hoje, abordava políticos e, com uma boa dose de ousadia e humor, colocava as personalidades em saias justas. Depois vieram muitos outros projetos, como o também inesquecível professor Tibúrcio (Rá-Tim-Bum) ou a apresentação do programa Vitrine, na TV Cultura. Questionado sobre fazer TV na década de 80 e hoje, Tas foi categórico. “Eu acho que ela (a TV) pode ser ainda mais ousada do que é hoje. Eu sempre fico insatisfeito com relação a isso. Pra mim, tudo o que é ousado, dá certo. O CQC é um exemplo disso. Nenhuma emissora brasileira tinha tido coragem de colocar um programa como este no ar. Eu acho fantástico a gente estar três anos em meio no ar e peitando coisas muito grande”. O apresentador fez ainda referência ao Pânico na TV, Caco Barcellos e Tiago Leifert. “Fazer um programa com jornalista iniciantes é muito ousado. Um trabalho de alta qualidade e alto sucesso, assim como o Tiago que tem um jeito todo especial de quebrar aquela coisa durinha da Globo e as pessoas gostam. A luta contra a caretice deve ser permanente”.
@Conecte-se
A era moderna com tecnologias interligando pessoas ao redor de todo o mundo facilitou ainda mais essa interação entre locutor e interlocutor, coisa muito difícil de acontecer há alguns poucos anos atrás. Como todo bom comunicador, nosso entrevistado está sempre pronto para falar… Mas principalmente para ouvir. O boom das redes sociais colabora muito para essa troca de sensações sobre tudo o que acontece no mundo. “Eu acho que é ainda mais. Acho que as mídias sociais revolucionaram a maneira como nós, que fazemos televisão, nos relacionamos com nosso cliente, o telespectador. Acho que esse é o diferencial. Porque antigamente a televisão só falava e era surda. O máximo que chegava numa emissora era uma carta que, muitas vezes, nem era levada em consideração. Agora não. Com as redes sociais temos imediatamente um público falando, criticando, sugerindo…“, comentou.
Ainda assim, Tas acredita que a televisão é medrosa e reage muito ao que é novo. “Tem gente que comenta a novela nas redes sociais e, às vezes, é mais delicioso ver os comentários no twitter do que assistir a própria TV. A busca pela atenção hoje é muito maior”.
Combinação Explosiva
O Custe o Que Custar entrou no ar em março de 2008, desde então a forma de abordar assuntos polêmicos e fazer denúncias ganhou uma nova versão, desta vez com humor e sem perder a responsabilidade. O modelo adotado da versão argentina deu muito mais certo no Brasil do que em outros países, embora a necessidade da população em entender o que acontece ao seu redor seja igualmente em todos os lugares. “Acho que o humorista ajuda quando ele mostra as fraquezas humanas e mostra o quanto a pose de muitas autoridades – e gente que acha que sabe tudo – é falsa. Pra mim é onde entra essa combinação explosiva do CQC que é o humor e jornalismo, que é a chave do programa. Não tem nada a ver com inteligente ou não inteligente, é uma coisa de você misturar dois ingredientes que não se misturam. O jornalismo é uma coisa muito equilibrada e precisa, o humor não: ele é descontrolado, impreciso, improvisado”.
O apresentador deixa claro que não gosta do rótulo “humor inteligente” e frisa que para ele o grande sucesso do programa vem da forma como os assuntos de interesse da população são tratados pela equipe. “Eu creio que o publico brasileiro é insatisfeito com a maneira como ele recebe as notícias, é insatisfeito com a realidade do País. O Brasil estava muito carente de quem tratasse o jornalismo com a nossa irreverência Tem gente que gosta do CQC porque o programa é engraçado, mas também porque estava com o saco cheio de olhar Brasília sempre do mesmo jeito”, reforçou.
Três doses de teatro…
“Ahhhhh… o teatro! (suspiro). O teatro é a segunda coisa mais divertida que existe na vida!” Foi assim que nosso entrevistado começou a responder os questionamentos sobre artes. A energia que tomou a sala com aquele suspiro encheu-nos também de alegria. Eis mais um assunto que renderia boas emoções.
Foi no teatro que Marcelo Tas encontrou Fernando Meirelles, um dos responsáveis pelo surgimento de Ernesto Varella, um dos personagens mais importantes de sua carreira e que o empurrou com força para a TV.
“O teatro é muito especial e está muito no centro da minha vida artística, embora nunca tenha sido a atividade principal. É algo que não dá para gente tocar de uma maneira lateral. O teatro exige que estejamos plenos ali e demanda uma energia gigantesca”, definiu. Mas, mais do que ator e diretor – sim, ele já atuou e dirigiu espetáculos. Seus dotes artísticos vão muito além do “homem de preto” ou do lendário professor Tibúrcio – o âncora é também um sonhador: “Eu espero ainda ter a chance de volta a atuar, fazer temporadas, dirigir espetáculos”.
Tas vai muito mais além quando o assunto é cultura. Ele acredita que esse tema, infelizmente, não passa de um mero quesito aos governos. “Nosso País é muito infantil. Eu peço até desculpa às crianças, mas infantil no sentido ruim da palavra. Na questão da imaturidade. Até hoje o Brasil não entendeu a importância da educação ou do teatro e outras formas de artes, por exemplos. O teatro é maltratado, a música é maltratada, a educação igualmente. Tem muita coisa que pode ser feita, mas não entendo por que não a fazem”.
… E um pouco de sexo
Como assim o teatro é a segunda coisa mais divertida?
“A primeira, obviamente, é o sexo! (risos, risos). Eu brinco muito com isso porque as pessoas ainda tratam o sexo como tabu. É uma das melhores formas de comunicação e diversão. Eu acho que as pessoas deveriam falar mais, viver mais o sexo. Tudo isso é bom demais!”
