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20 de maio de 2012

As cores de um mundo injusto

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Postado por: Revista Interativa

(DES)IGUALDADE RACIAL

Até que a filosofia que sustenta uma raça superior e outra inferior, seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada haverá guerra, eu digo guerra. Até que não existam cidadãos de 1º e 2º classe de qualquer nação, até que a cor da pele de um homem seja menos significante do que a cor dos seus olhos, haverá guerra [...]”

 

Tais palavras são de um dos grandes artistas negros que o mundo teve a honra de conhecer e compartilhar de suas ideias na luta por uma sociedade mais justa e igualitária, sem distinção de cor e raça. A música “War” (Guerra), composta por Bob Marley, descreve o grito do desejo de um jovem artista em acabar com o racismo e estabelecer a paz entre todos. O músico morreu sem ver seu sonho de igualdade realizado, mas suas letras e manifestos artísticos perduram até hoje e são cantados e aclamados por milhares de fãs que, assim como muitos, lutam pelo fim (real) do preconceito racial.

Esta luta não é restrita apenas a países onde o racismo é mais evidente, mais violento e, por vezes, mortal. O Brasil, com seu discurso multicultural e detentor de um “caldeirão de raças”, também convive com os problemas gerados pela intolerância. Nossa Constituição garante a defesa das chamadas, de forma errônea, minorias – “qualquer pessoa que se sentir humilhada, desprezada, discriminada por sua cor de pele, religião, opção sexual pode recorrer a um processo judicial contra quem cometeu tal atrocidade”. Mas, será que a realidade reflete bem o discurso? As estatísticas mostram que não.

 

Números da vergonha

Preste atenção nestes dados colhidos através da pesquisa do Laboratório de Estudos sobre Desigualdades Raciais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LAESER), considerado o panorama racial mais completo já feito no Brasil. O responsável pelo estudo foi o economista e sociólogo Marcelo Paixão, considerado o pensador do negro mais importante da atualidade.

Segundo o estudo, os afrodescendentes têm menor chance de acesso ao sistema de saúde no Brasil. A taxa de não cobertura chega a 27%, já os brancos chegam a 14%. Outro dado preocupante é o acesso da mulher negra ao exame pré-natal, 42% delas não têm acesso, enquanto nas brancas este percentual é bem maior, 71%.

 

Barreiras na universidade

Talvez não tenhamos conseguido fazer o melhor, mas lutamos para que o melhor fosse feito”. Martín Luther King

A frase acima do grande pensador e líder norte-americano Martin Luther King pode servir como um reflexo do atual sistema educacional brasileiro. Neste caso, o assunto em pauta está no acesso do negro nas universidades públicas, ou seja, ensino gratuito, direito de todos, como prevê a nossa Constituição. Mas não é bem assim que acontece. Nossa personagem é Reisa Venâncio, negra, e que estudou sempre em escola pública. Na formação superior não foi diferente e ela já possui o diploma de educadora física pela Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e agora, investe na segunda graduação: gerontologia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Esta brasileira pertence a uma lista restrita de negros que conseguiram uma vaga nestas universidades. “Na sala de aula você percebe como é reduzido o nosso número. Na minha classe, por exemplo, sou a única”, disse.

A educação tem um papel importante na desconstrução deste cenário, mas ela ficou por séculos de braços cruzados para temas importantíssimos. “Um exemplo claro é a história dos negros e da África; se somos uma nação formada pela miscigenação de brancos europeus, índios americanos e negros africanos, por que só a história dos europeus era contada nas escolas? Foi preciso uma enorme pressão do Movimento Negro e de uma Secretaria da Igualdade Racial para que este erro fosse reparado! O branco formou o País, mas o negro e o índio também. Não faz sentido, entendemos, mostrar um lado sem qualquer referência aos outros. Doutro modo, falar na ‘cultura dos pais negros’ é falar no caldo cultural – e racista – no qual eles estão inseridos”, diz o sociólogo e teólogo Cleinton Souza.

O sociólogo explica ainda que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), para um branco atingir oito anos de escolaridade são necessários 13 anos de estudos, sendo que para os negros atingirem os mesmos oito, vão-se 32 anos. “Após o governo Lula isso mudou um pouco – por conta de alguns programas de distribuição de renda -, mas esta é outra maneira de se perceber a estrutura racista (velada) da nação”, completou.

 

Políticas de inclusão e efeitos

Apesar de ações como o Prouni (Programa Universidade para Todos), cotas raciais ou as pontuações, permitidas por universidades como a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o número de negros ainda é bastante reduzido. Enquanto as faculdades particulares 2011 apresentaram um salto de mais de 236%, segundo o Ministério da Educação, nas públicas a situação é oposta. Dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais do Ensino Superior revelam que os negros representam apenas 8,72% dos alunos totais. Brancos são 53,9%, pardos 32% e o número de indígenas é ainda menor, apenas 1%.

Para a socióloga e antropóloga Maria Bernardete Fin, o Brasil precisa seguir um longo caminho para a igualdade na educação. “O Estado tem a obrigação de participar com políticas públicas já que esta questão não se resolve facilmente, pois é um fator histórico”, argumentou. Ela reconhece que houve avanços com as políticas adotadas durante o governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, mas estas ações “devem ser ampliadas”.

 

Preconceito velado

Outra que defende um investimento maciço em políticas públicas é a historiadora Natália Ferreira de Campos que vai além, e afirma que uma das causas deste atraso está no preconceito velado tão presente na sociedade. “Não existe o preconceito aberto, como nos Estados Unidos, por exemplo, mas aqui temos o conceito velado e que não é falado e fica restrito apenas na esfera particular”, explicou Cleinton Souza.

Enquanto o País ainda caminha de forma lenta para a completa inclusão, milhões de alunos pertencentes à raça negra ainda precisam conviver com a luta para a entrada na faculdade pública. Este problema e reconhecimento parte da própria aluna Reisa, que se considera uma vencedora, mas deseja que este troféu seja erguido por outros brasileiros, como ela. “Percebemos um crescimento, mas é preciso mais, avanço nas melhorias e ações para todos”, concluiu.

 

Mãos à palmatória

Assim como Martin Luther King, Barack Obama, Lewis Hamilton, Nelson Mandela e até Pelé vêm quebrando todos os paradigmas e provando que somos, sim, iguais uns aos outros e com as mesmas condições de chegar ao topo com dedicação, respeito e trabalho árduo. O que detém as conquistas, muitas vezes, está escondido por detrás de panos costurados há décadas na sociedade. “Não é a cultura dos negros que impede que seus filhos se entendam dignos e satisfeitos enquanto pessoas de cor escura, mas uma imagem socialmente denegada. Se a imagem dos negros fosse vista como positiva, não haveria problema algum em casa ou na rua. O grande problema é que toda a estrutura está viciada numa lógica que entende que o que é claro é bom e o que é escuro é ruim [...]”, complementa o sociólogo.

 

Beleza negra

Pela primeira vez na história uma negra foi eleita Miss Universo. Mais do que um título de beleza, Leila Lopes carrega a responsabilidade histórica. Na opinião do sociólogo Cleinton Souza, a escolha pode ter sido meramente política. “Não foram poucos os que, categoricamente, afirmaram que ‘ela só ganhou porque o concurso foi no Brasil’. É como se o nosso país ‘tolerasse’ mais esses ‘deslizes de escolha’. Por outro lado, no nosso entendimento, a escolha da angolana pareceu ser algo muito mais político do que estético, o que só o tempo poderá confirmar ou refutar”, disse.

A vitória de Leila mostrou o quão forte é a intolerância no Brasil. Na mesma semana da seleção das candidatas, a angolana foi alvo de ataques racistas brasileiros em redes sociais. Um usuário chegou a chamá-la de “macaca”. Tal episódio ilustra a realidade em que a grande maioria dos brasileiros, que são afrodescententes, convive no dia a dia.

 

Conheça mais o trabalho do sociólogo Cleinton Souza através do Blog cleintongael.blogspot.com

 






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